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A realização do III Fórum Mundial da Água, em Kyoto, no Japão, reuniu representantes de governos, empresas, organizações não-governamentais, técnicos e especialistas. No centro dos debates esteve a busca de políticas para enfrentar, nesta e na próxima década, a anunciada crise no abastecimento de água em várias partes do globo. A destruição e a contaminação de fontes e de mananciais, de rios e lagos, o desperdício incontido e a apropriação privada desse bem social são os principais agentes de uma crise entrevista para um futuro próximo. O encontro foi para saber o que cada nação pode fazer na consecução desse objetivo. Revelou, também, o que não querem realizar.
Na atualidade os problemas de água afetam, gravemente, 26 países e cerca de 300 milhões de indivíduos. Em 2050, estima-se, serão 66 países e 2 bilhões de pessoas. A ONU pretende reduzir, até 2015, em 50% a população sem acesso à água potável e ao saneamento básico. Com metade da população mundial vivendo em cidades, o consumo dobrou nos últimos 50 anos. Os países ricos do norte, por sua vez, são os maiores consumidores e poluidores das águas utilizadas na agricultura, indústria e residências. Calcula-se que para cada litro de água contaminada, outros 8 litros de água limpa ficam comprometidos. As mudanças climáticas, observadas nas décadas recentes, completam o quadro, colaborando para o desequilíbrio geral com chuvas, inundações e secas excessivas.
No Brasil a abundância de águas tem ofuscado a percepção da gravidade do problema. Entretanto, o mesmo uso predatório, perdulário e irresponsável, existente na utilização de outros recursos naturais, é observado quanto aos recursos hídricos no país. O desperdício é o grande consumidor de água no Brasil. A água retida em grandes reservatórios e açudes para irrigação e abastecimento sofre perdas consideráveis com a evaporação, enquanto vazamentos nas redes de distribuição consomem quase a metade do líquido, antes que este chegue ao seu destino. Nas residências a água utilizada efetivamente é cerca de 30%, o restante escorre indiferentemente pelas torneiras, descargas, mangueiras, chuveiros e na lavagem de carros e calçadas. A contaminação química e orgânica, pelas indústrias, agrotóxicos, mineração, lixo e esgotos domésticos, compromete as águas no sudeste do Brasil, ao passo que a escassez é um problema sensível no nordeste. A ausência de saneamento básico faz com que 70% das internações no país sejam decorrentes de problemas gerados pela água contaminada, apesar do alerta da Organização Mundial de Saúde: cada dólar investido em saneamento, representa 4 dólares economizados em saúde.
A crise maior, segundo a UNESCO, está localizada na gestão da água e não no comprometimento de sua existência e disponibilidade, exceto em algumas partes do globo. Esta crise de gestão é motivada pela inércia de governantes, por um lado, e pela indiferença, imobilismo e falta de informação da sociedade, por outro. O reaproveitamento da água utilizada na produção e serviços, com o tratamento dos resíduos poluentes, o aprimoramento da tecnologia na rede de distribuição e na exploração de reservas subterrâneas, a preservação e recuperação de fontes e mananciais, acompanhadas de novos mecanismos de controle e participação social são algumas iniciativas que podem afastar o risco e o temor da escassez generalizada da água no planeta. Já o consumo doméstico deve ser alterado com novos hábitos e condutas sociais responsáveis na utilização das águas.
A compreensão da situação das águas no mundo contemporâneo afasta cenários catastrofistas, de futuras disputas e conflitos pelo seu uso, controle e comércio. Pode, ainda, estimular novas posturas de cidadania, individual e coletiva, participativas e decididas, possibilitando uma existência mais humana, mais justa e feliz.
Paulo Henrique Martinez é professor no Departamento de História da UNESP, Assis/SP.
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