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Ovo que Produz Sonhos
 
 
O pintor espanhol Salvador Dalí procurou expressar as manifestações do inconsciente humano, dando-lhe materialidade em sua arte. Estas manifestações poderiam brotar de sonhos e pesadelos, de alucinações provocadas pelo álcool e alucinógenos, de desejos e fantasias sexuais, de delírios da imaginação. O empenho em capturar o inconsciente resultou em obras artísticas de rara beleza, sensibilidade e inovação estética. Traduzir o impensável foi um dos êxitos da arte de Dalí.
Ao propor a mobilização mundial por uma Década Internacional para o Desenvolvimento Sustentável, entre 2005-2014, a Unesco lançou um desafio semelhante ao enfrentado pelo pintor espanhol. O Secretário Geral da ONU, Kofi Annan, qualificou como o “maior desafio neste século” a promoção de uma “idéia que parece abstrata, o desenvolvimento sustentável”. Como lhe dar materialidade, sensibilizar homens e mulheres sobre a sua necessidade e urgência, torná-lo visível e real? E mais, como prepará-los para essa tarefa em escala planetária? Pela educação, diz a Unesco. Uma década de esforços educacionais para a promoção do desenvolvimento sustentável.
Iniciar um processo de mudança cultural, induzido pela mobilização voluntária e espontânea, sem a coerção estatal ou institucional, de forma participativa e plural, em nome da qualidade de vida. Este é, sem dúvida, um grande desafio, a ser realizado pessoal e institucionalmente, em parcerias variadas, que resultem em impacto real de sustentabilidade.
Na década de 1930, sob o fascismo, o intelectual marxista italiano Antonio Gramsci dedicou muitas páginas dos cadernos que redigiu, no cárcere, ao tema da mudança cultural induzida. Examinou-a sob a ótica do Estado e das classes dominantes. Formulou diretrizes para a elaboração de uma vida cultural que conduzisse à negação ética e racional, visceral, do capitalismo. Conferiu valor central aos processos educativos, escolares ou não, aos artistas e intelectuais.
No segundo pós-guerra, filósofos alemães, como Adorno e Marcuse, constataram com amargura a força da crescente indústria cultural na formação de corações e mentes na sociedade moderna. Na China dos anos 1960, Mao Tse Tung tentou promover uma revolução cultural e “reeducar” o povo com regras, mandamentos e repressão. Não obteve sucesso. Na França e nos EUA, jovens de classe média quiseram subverter o mundo, abraçando novos valores, traduzidos na geração 68 e no movimento hippie. Uma poderosa força centrífuga parecia conter essas sociedades.
Mudanças culturais requerem grandes esforços. Não caminham sozinhas. No século XX, os partidos comunistas de todo o mundo, unidos no início, divididos depois, julgaram-se instrumentos de transformação social e cultural. Decretada a morte do socialismo, o desafio de pensar uma nova forma de civilização retorna ao centro dos debates culturais.É pautado, agora, pelos representantes de governos, de organismos internacionais e da sociedade civil que, desde a década de 1970, estão mobilizados para equacionar a convivência entre meio ambiente e desenvolvimento econômico.
Ao buscar assegurar a qualidade de vida das gerações atuais e do futuro, a Unesco aponta a mudança das atuais condições de existência humana, de consumo e de produção econômica, como aspectos fundamentais a serem transformados nas sociedades do século XXI. Em sendo o ser humano o principal modificador da natureza, deve estar também no centro das análises e da promoção do desenvolvimento sustentável. Aqui a importância da educação, formal e não formal.
A necessidade de estabelecer um corolário cultural, filosófico e ético, em escala mundial, sustenta o propósito da Unesco de alcançar maior participação social na tomada de decisões voltadas para a melhoria da qualidade de vida. A educação precisará atingir o maior número de indivíduos, em todas as faixas etárias, e estimular a mudança de valores, atitudes e estilos de vida. Aprimorar a educação, reorientá-la para a efetivação de uma sociedade mais justa, ecologicamente sustentável e viável economicamente. Torná-la um propulsor de desenvolvimento sustentável. Eis o marco zero, de onde poderão nascer sonhos novos da e para a humanidade. Um retorno às utopias?
Elaborar e viabilizar projetos sociais, econômicos e ecologicamente sustentáveis para um outro mundo. E melhor. Alcançar o impossível, com o máximo de realismo. Sonhos de Dali?
Paulo Henrique Martinez, professor e organizador do Laboratório de História e Meio Ambiente no departamento de História da UNESP/Assis.
 
Paulo Henrique Martinez
 
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