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O Café e a Mata Atlântica
 
 
O café remodelou o estado de São Paulo. E também parte de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Paraná. Em pouco mais de um século engoliu, quase completamente, as florestas que recobriam os solos dessa parte do Brasil, a Mata Atlântica. Entre 1890 e 1940, foi o principal item das exportações brasileiras. O cultivo e a comercialização do produto fizeram a fortuna e alegria de poucos. A ruína e tristeza de muitos. O Brasil era café. Foi café, desde o Império até a industrialização acelerada da década de 1950. Nos áureos tempos, alguém imaginou que “iríamos à Europa num aterro de café”. Acreditava-se que os níveis de desenvolvimento econômico e social dos países europeus seriam alcançados por obra e graça da incessante, insaciável, cafeicultura.
O Brasil, então, permaneceu integrado à economia internacional, tal como ocorria desde a colonização portuguesa, atendendo grande parte do mercado mundial de café. No século XX, a vida de paulistas, mineiros e paranaenses esteve profundamente marcada pelas grandes fazendas exportadoras. Muitas deram origem a importantes centros agrícolas, núcleos de povoamento e colonização, hoje cidades, no interior de vários estados.
Esta situação despertou o interesse de estrangeiros que procuraram compreender e explicar o Brasil pela importância da cafeicultura. Foi o que aconteceu, por exemplo, com os historiadores Stanley Stein e Warren Dean, atentos à gritante situação de atraso e subdesenvolvimento do nosso país. Estes brasilianistas, norte-americanos especialistas em problemas brasileiros, realizaram meticulosos estudos sócio-econômicos das comunidades cafeeiras de Vassouras e de Rio Claro. Ambos procuraram conhecer o ambiente dessas localidades e os efeitos que a grande lavoura de café provocou nas instituições nacionais.
Os dois professores aprenderam, com estudo e pesquisa histórica, aquilo que brasileiros comuns conheciam pelas experiências de vida e trabalho cotidianos. Em sua expansão devastadora, o café devorou as florestas, transformando os sertões do Brasil. A pesquisa de Stanley Stein sobre Vassouras explicitou as mudanças que a cafeicultura impôs no vale do Paraíba, ao longo do século XIX. O café interrompeu uma fase de contemplação das matas virgens e lançou os agricultores, grandes e pequenos, em uma corrida pela conquista de cada palmo de terra. O fascínio pelo enriquecimento rápido é uma herança dos tempos coloniais, quando a mineração era a principal esperança para “subir na vida”. Os cafezais eliminaram matas, roças, pastos e sítios. Baniram índios, quilombos, posseiros, lavradores pobres. Ocuparam imensas extensões de terras. Logo, brotou a expressão que fundiu novos e antigos sentimentos de cobiça e ambição. E o café virou “ouro verde”.
Na trilha aberta por Stein, Warren Dean chamou a atenção para aspectos complementares que, ao lado da cafeicultura, contribuíram para a destruição da Mata Atlântica. A pequena agricultura itinerante, a urbanização crescente, o aproveitamento das áreas de capoeiras, as queimadas da mata e inovações nos transportes. A fabricação de móveis e utensílios (quem se lembra da gamela, da colher de pau ?), o fogão de lenha, sabão de cinzas, tijolos e telhas cozidos no fogo. As ferrovias dragaram o restante das florestas. Informou um ferroviário, hoje, aposentado. Para trilhos, dormentes de peroba, ipê, jacarandá, e para fornalhas, madeiras de todo tipo. Até 1960, as locomotivas moviam-se queimando lenhas das matas. Depois, substituíram-nas pelo óleo diesel e a eletricidade.
Em uma rua no centro de Assis, pergunto a um morador amigo a quem pertence suntuosa casa de esquina. Ele pronuncia o nome da família proprietária e, descontraído, completou “enriqueceram vendendo lenha para a ferrovia”. O café marcou as paisagens da atualidade e as ruas guardam seu passado. Não poderíamos conhece-lo melhor, de perto ? Paulo Henrique Martinez, professor e coordenador do Laboratório de História e Meio Ambiente do Departamento de História da UNESP/Assis (labhima@uol.com.br).
 
Paulo Henrique Martinez
 
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